Inpe monitora óleo por satélite e afirma que material pode chegar ao Espírito Santo e ao Rio

Redação

Estudo entregue nesta sexta-feira (1°) ao comitê de crise aponta que manchas de óleo podem estar ‘represadas’ em alto mar e sendo arrastadas por correntes marítimas, podendo chegar a outros estados. Inpe afirma que atua para detectar movimentação e indicar locais com óleo.

O Instituto de Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com sede em São José dos Campos, informou nesta sexta-feira (1°) que o óleo que atinge o litoral do nordeste pode chegar aos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. O órgão foi acionado pelo comitê de crise do governo federal e atua para detectar movimentação e indicar locais com óleo no mar.

De acordo com o oceanógrafo Ronald Souza, que lidera o grupo de pesquisas, a hipótese é de que haja muito mais óleo em oceano aberto e há possibilidade desse material avançar pela costa brasileira e chegar ao Espírito Santo e ao norte do Rio de Janeiro. O relatório foi entregue pelo grupo de estudo à Marinha na tarde desta sexta-feira (1°).

“A hipótese do Inpe é de que há óleo em oceano aberto e que pode chegar até a costa de outros estados do país, incluindo o sudeste”, disse em entrevista coletiva.

Apesar disso, o oceanógrafo classificou como remota a possibilidade do óleo chegar a São Paulo por causa de características geográficas da costa brasileira.

“A corrente original fica muito mais longe da costa [de São Paulo] do que de Cabo Frio para cima. É uma proteção natural”, explicou.

Oceanógrafo do Inpe afirma que óleo pode chegar ao ES e RJ — Foto: Poliana Casemiro/ G1

Ronald afirma que o Inpe foi acionado oficialmente pelo governo federal na última sexta-feira (25), quando foi emitida uma carta solicitando a cooperação com o comitê de crise que atua no caso. Ele afirma que o objetivo do órgão é monitorar o óleo e indicar para as autoridades onde há a presença do material.

“Estamos mapeando com o satélite essas áreas predeterminadas e desenhando mapas para que os navios de pesquisa possam ir a esses locais e identificar se há uma massa de óleo e então retirar isso”, explicou.

O primeiro passo foi analisar a imagem que mostrava uma mancha que poderia ser a fonte do óleo. As imagens foram confrontadas por radares e pesquisadores do instituto descobriram se tratar de um aglomerado de algas, e não uma massa de óleo.

Depois disso, eles passaram a estudar o curso do óleo, tendo como base as chegadas ao litoral para tentar chegar a resposta de onde ele poderia estar vindo. Ronald explica que a proporção é mais complexa, porque há possibilidade de que haja muito mais óleo do que se imagina. O resíduo tem chegado em partes separadas em praias do nordeste e em áreas da costa diferentes.

O oceanógrafo explica que isso acontece porque o óleo está em textura plástica, pela ação do tempo, e aglomerado em vórtices – pedaços de água desprendidos da corrente e que giram. Em seu movimento, é como se criassem bolhas de óleo e, em vórtices, caminham de maneira diferente do restante da água.

Para chegar ao resultado eles usaram imagens do Cbers-4 e de outros satélites observando o comportamento da área e das correntes marítimas dos últimos 60 dias.

A resposta, segundo Ronald, é um alerta de que pode haver muito mais óleo represado, mas também trazer uma resposta sobre a forma de conter a chegada das manchas às praias.

O relatório enviado pelo Inpe ao comitê nesta sexta é resultado de um trabalho de uma semana, com o tipo de cooperação que o pesquisador chamou de ‘informal’, por não estarem diretamente ligados ao comitê.

Questionado pela reportagem sobre a possibilidade de um contato tardio com a instituição, uma das referências em monitoramento e pesquisa no país, o pesquisador disse que o governo talvez não reconhecesse a área de oceanografia da instituição como a mais preparada para o caso.

Navio suspeito

Bouboulina, navio petroleiro operado por empresa grega suspeito de derramar o óleo que atinge o Nordeste, segundo a PF — Foto: Carlos Vadir Góñiz Fariñas/Arquivo pessoal


A Polícia Federal estima que 2,5 mil toneladas de óleo foram derramados no litoral nordestino. Ainda não se sabe, entretanto, se houve um acidente ou vazamento do navio.

O petroleiro grego suspeito de derramar o óleo que causou o maior desastre ambiental já registrado na costa brasileira se chama Bouboulina. Ele carregou 1 milhão de barris do petróleo tipo Merey 16 cru no Porto de José, na Venezuela, no dia 15 de julho. Zarpou no dia 18 com destino à Malásia.

As informações sobre os detalhes do navio, sua carga e trajetória foram fornecidos pela agência de geointeligência Kpler, a pedido do G1, com base nos dados da Operação Mácula, desencadeada pela Polícia Federal nesta sexta-feira (1º). A embarcação Bouboulina passou a oeste da Paraíba em 28 de julho, segundo um porta-voz da agência.

As investigações do governo brasileiro apontam que a primeira mancha no oceano foi registrada em 29 de julho, a 733 km da costa da Paraíba. As primeiras praias do país afetadas foram no município paraibano de Conde em 30 de agosto.

O navio Bouboulina e a empresa grega dona da embarcação foram citados na decisão judicial que autorizou o pedido de busca e apreensão em escritórios no Rio de Janeiro. De acordo com os investigadores, 2,5 mil toneladas de óleo foram derramadas no oceano.

A proprietária do navio é a Delta Tankers, fundada em 2006, mesmo ano de fabricação do navio. A empresa Delta Tankers declarou que as autoridades brasileiras que investigam o derramamento de petróleo no litoral nordestino não a procuraram, segundo a agência de notícias Reuters

De acordo com o delegado Agostinho Cascardo, a Marinha do Brasil apurou que, em abril, o navio grego ficou retido nos Estados Unidos durante 4 dias por causa de problemas no filtro de descarte da embarcação.

O petroleiro é do tipo Suezmax, e sua capacidade máxima é 1,1 milhão de barris. Considerando o valor atual de mercado do petróleo, o carregamento vale cerca de US$ 66 milhões. As 2,5 mil toneladas que vazaram na costa brasileira equivalem a quase três milhões de litros.