Secretário Nésio Medeiros: ‘Não há justificativa para flexibilizar isolamento’

Auge da crise deve ter 6 mil doentes. ES tem hoje 84 confirmações, três por transmissão comunitária

O Espírito Santo entrou nesta segunda-feira (30) em uma nova fase da pandemia da Covid-19, com a confirmação de três casos de transmissão comunitária da doença. Isso acontece quando, num prazo de 36 horas, não se consegue identificar a origem da contaminação do paciente. 

O total de casos confirmados, até o momento, é de 84, conforme informa o 32º boletim da covid-19 da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Os novos 13 registros são da Serra (5), Vitória (4), Vila Velha (3) e Cariacica (1). Dos 84 casos confirmados, 13 pacientes já estão curados, 59 estão em isolamento residencial e 12 estão internados, sendo sete em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

O novo cenário, enfatizou o secretário de Estado da Saúde (Sesa), Nésio Medeiros, traz a “necessidade de responder a epidemia de forma mais robusta”. As medidas de isolamento social já tomadas pelo governo do Estado, explica, desde que mantidas, tendem a continuar forçando a uma subida menos acentuada da curva de transmissão no Espírito Santo em relação a outros estados e países. “Não há nenhuma justificativa pra flexibilizar isolamento social”, asseverou, em coletiva concedida ao lado do governador Renato Casagrande.

Até a próxima sexta-feira (3), no entanto, é possível que alguns comércios entrem na lista de serviços essenciais e possam abrir as portas, a partir de protocolos de segurança publicados pelo governo, como materiais de construção e lojas de autopeças. “Tudo vai depender dos dados que tivermos ao longo da semana”, ressalvou o governador, enfatizando: “precisamos de cuidados redobrados na nossa vida pessoal, familiar, ao entrar no supermercado, na farmácia, ao acessar um ônibus”, orientou.

Os dados que balizam as decisões governamentais são basicamente o número de casos confirmados. Para isso, o Estado está investindo em ampliar ao máximo a capacidade de testagem no Laboratório Central (Lacen). “A decisão acertada de ampliar testagem, para ter uma radiografia fina, é o que progressivamente vai subsidiar nossas decisões em favor da vida. Não é capricho, vaidade técnica. São Medidas técnicas responsáveis, serenas, sérias”, declarou Nésio.

A meta é testar 100 mil pessoas no Estado. Segundo Casagrande, já foram comprados 50 mil testes, que devem chegar a partir de 15 de abril. Outros 15 mil foram doados e chegarão em breve. Para esta semana, estão sendo comprados mais cinco mil. Outros 30 mil serão encomendados nos próximos dias. 

As primeiras projeções, mais amplas, explica Nésio Medeiros, foram feitas em fevereiro e apontam um cenário de pico com seis mil infectados durante um período de 60 a 90 dias de transmissão comunitária. Cinco por cento deles (300), em média, necessitando de leitos de UTI. Mesmo que essa grandeza se modifique, a partir do monitoramento real dos casos dia a dia, o Estado trabalha com dois marcadores: 50% e 80% de ocupação dos leitos. “Com 50% da capacidade instalada, é preciso preparar mais leitos e com 85% de ocupação, acende-se o alerta de colapso iminente do sistema de saúde. “São números gigantescos. Precisamos de medidas pra frear a transmissão comunitária e para ampliar a testagem na população”. 

Ainda assim, destacou o secretário de Saúde, “o Espírito Santo tem chance de ter baixa letalidade por ter preparado a rede de maneira adequada e no tempo certo pra receber os casos graves e por ampliar a capacidade de testagem”. 

De fato, o Lacen iniciou com uma capacidade de 50 testes/dia e se prepara para fazer 500 testes/dia ainda esta semana. Do Ministério da Saúde, chegam apenas 800 por semana, com recomendação de testar apenas os casos graves. A Sesa, no entanto, nesse esforço de ter uma radiografia fina da pandemia, vai priorizar os casos graves, numa testagem rápida (com resultado em dez minutos), mas vai testar também outros suspeitos e pretende ainda ter uma amostragem geral da população – esses prioritariamente com os testes PCR, que são mais precisos e detectam o vírus assim que a pessoa é infectada e não após nove a dez dias da contaminação. 

“Teremos máquinas exclusivas para testagem de pacientes graves no hospital. E outros equipamentos para os demais casos”, disse Nésio. São metas e métodos, enfatizou, bem ousadas para os parâmetros brasileiros. “No futuro, tendo amostragem, podemos definir que uma região ou outra tenha mais restrições ou menos, com segurança do que se está fazendo”, antecipou Casagrande. 

Protocolos 

O governador anunciou que nesta terça-feira (31) será publicado um decreto com protocolo mais rigoroso para funcionamento das casas lotéricas e que outros setores terão em breve protocolos mais rigorosos para funcionamento. O grande desafio, ressaltou, é o transporte coletivo. Apesar da redução da demanda em 75%, ainda é a questão de maior dificuldade de controle do afastamento necessário entre as pessoas. 

Sensibilização 

A posição do governo, reforçou, é de sensibilizar as pessoas, evitando o choque, a multa e a força policial. “As pessoas precisam compreender a necessidade de todos participarem”, rogou. “Toda pessoa com febre e problemas respiratórios deve ficar em isolamento estrito por 14 dias, sem sair de casa, sem nenhum tipo de atividade social fora de seu apartamento, pra quem mora em condomínio. Tem que usar máscara dentro de casa e não pode tocar os familiares. A disciplina intradomiciliar tem que ser reforçada”, explicou Nésio Medeiros. 

Leis 

Esta semana a Sesa também elabora editais para contratação de 500 profissionais. E futuramente pode remanejar pessoas do interior para a capital, se necessário. E o Executivo irá enviar à Assembleia Legislativa quatro projetos de lei relacionados ao coronavírus: um para reorganizar internamente a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), transformando hora extra em escala especial, o que dará mais estabilidade aos inspetores penitenciários, sem aumento de despesa; outro permitindo a convocação de policiais da reserva para trabalharem no reforço da segurança pública; um terceiro que permitirá que até 30% dos recursos do Fundo Cidade sejam usados na assistência social e saúde; e um último que criará um fundo de aval no Banco de Desenvolvimento do Estado (Bandes) para aportar 30 milhões a serem disponibilizados em operações de crédito de até R$ 5 mil para microempreendedores individuais (MEIs), artesãos e trabalhadores da economia solidária.