Cidades verdes, cidades vivas!

“Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes.”
(Mário Quintana)

Mário Quintana nos enriquece com a beleza de seus versos, assim como as árvores nos enriquecem de vida. Este texto trata de um assunto necessário e urgente: a saúde das cidades, que entendemos como a saúde das pessoas que vivem nas cidades.
A arborização urbana presente nas ruas e nas áreas verdes onde a vegetação arbórea é predominante, como praças, parques e jardins, nos aproximam do meio ambiente natural.

A beleza é notável! Mas qual é a relação das árvores com a saúde das cidades?
Comecemos listando alguns dos problemas ambientais comuns nos centros urbanos e suas consequências na saúde humana:

Poluição do ar: A poluição do ar é um problema frequente nas cidades devido principalmente às indústrias e ao transporte rodoviário. Segundo dados recentes publicados pelo Ministério da Saúde, o número de mortes em decorrência da poluição atmosférica aumentou 14% nos últimos dez anos no Brasil (1). Essas mortes são consideradas evitáveis e decorrentes da exposição à poluição do ar, principalmente nos centros urbanos.

Poluição sonora: A poluição sonora é uma questão de saúde pública, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS)2. Mais do que incomodar os mais sensíveis, o barulho pode provocar sérios problemas de saúde com prejuízos aos sistemas nervoso e cardiovascular, agravar sintomas relacionados à ansiedade, estabilidade emocional, déficit de atenção, perda de memória, distúrbios de sono, dores de cabeça, nervosismo, estresse e aumento da obesidade (2,3).

Ilhas de calor (elevação da temperatura de uma área urbana se comparada a uma zona rural): A influência do clima urbano na saúde e no conforto humano é objeto de estudo da bioclimatologia, que tem grande relevância sob a perspectiva das mudanças climáticas globais e na previsão de seus possíveis efeitos. A temperatura e a umidade relativa do ar (UR%) têm relação com a termorregulação – capacidade de se adequar à variação de temperatura – e com a circulação sanguínea. As ondas de calor antecipam a morte de pessoas vulneráveis como crianças e idosos, segundo estudo realizado pelo economista e professor da Universidade Federal de Goiás, Paulo Henrique Cirino Araújo. Em 2017, foi publicado na revista Environmental Health Perspectives um estudo que indicou o Brasil como vulnerável à mortalidade causada por ondas de calor, num comparativo entre 18 países (4).

Escoamento inadequado das águas pluviais: Muitas vezes, chuvas tão necessárias e reconfortantes acabam por gerar caos nas cidades, isso porque o escoamento das águas não ocorre na intensidade e na forma adequada. Os prejuízos podem ser econômicos e de saúde pública, pois o contato com a água oferece riscos em casos de contaminação e sujeira. Além disso, a proliferação do Aedes aegypti – principal vetor dos vírus da dengue, chikungunya e zika – é facilitada com o acúmulo de água das chuvas e altas temperaturas.

É de senso comum que “viver perto do verde” é mais agradável e mais saudável. Mas, tendo em mente os problemas urbanos citados, voltemos a nossa questão: Como as árvores ajudam a melhorar a saúde da população e preservar a vida nas cidades? É simples… as árvores possuem superpoderes!

Superpoder n° 1: As árvores nos protegem contra a poluição do ar.
Através do processo de fotossíntese as árvores produzem oxigênio (O2) e capturam dióxido de carbono (CO2) – “sequestro de carbono”. Muitas espécies são capazes de reter partículas e diversos gases poluentes, assim elas filtram o ar e melhoram sua qualidade (5).

Superpoder n° 2: Árvores bloqueiam a poluição sonora.
As árvores servem de bloqueio natural às ondas de som, diminuindo assim a intensidade da poluição sonora (6).

Superpoder n° 3: Árvores amenizam o calor e criam um microclima agradável.

No meio urbano a radiação solar é altamente absorvida pelos materiais utilizados nas construções e na pavimentação das ruas, resultando em elevação da temperatura e diminuição da UR%. O calor irradiado por uma superfície aquecida pelo sol é proporcional à sua temperatura (7), as árvores por causarem sombra evitam que o calor irradie. A maior parte da energia solar interceptada pela vegetação é utilizada para fotossíntese e transpiração, o que aumenta a UR% e cria um microclima agradável em seu entorno.

Superpoder n° 4: Árvores diminuem o escoamento superficial das águas.

As copas das árvores interceptam parte da água das chuvas, assim reduzem o volume e a velocidade do escoamento superficial. A arborização urbana permite uma redução significativa da sobrecarga dos sistemas de drenagem (8). É importante destacar que para o ótimo aproveitamento desse benefício é essencial que as árvores sejam plantadas em canteiros não pavimentados, de maneira a permitir a infiltração da água no solo.

Superpoder n° 5: O verde revitaliza!
Muitas cidades possuem parques e grandes áreas arborizadas como espaços admiráveis de convívio social e de turismo. Até para os que ainda não conhecem pessoalmente, é de notório reconhecimento o Central Parque de Nova York (EUA), o Jardim Botânico e o Aterro do Flamengo da cidade do Rio de Janeiro – RJ, o Parque do Ibirapuera na cidade de São Paulo – SP, o Jardim Botânico de Curitiba – PR e os Parques Moscoso e da Cebola em Vitória – ES, assim como tantos outros em tantos lugares. As áreas verdes são uma aproximação da natureza que detêm o poder de revitalizar pessoas e cidades. É cientificamente comprovado que a arborização urbana contribui para o bem-estar da população. Os mecanismos associados à melhoria da saúde física e mental são multifatoriais. Além do que foi citado anteriormente, diminuição do estresse, aumento do relaxamento e contatos sociais são importantes benefícios que as áreas verdes oferecem (9).

Por fim, podemos afirmar que, para além da beleza, as palavras de Mário Quintana nos trazem verdades. Os tons cinzas da urbanização provocam a urgência do verde. É necessário equilibrar a construção humana com a natureza. É necessário que os benefícios gerados pelas árvores alcancem a todos, assim teremos cidades cada vez mais vivas.

Alessandra de Lima Machado
Enga. Agrônoma, Analista Ambiental, Doutora em Fitotecnia

Referências
1 Ministério da Saúde – Mortalidade devido à poluição
http://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/45500-mortes-devido-a-poluicao-aumentam-14-em-dez-anos-no-brasil
2 World Health Organization – Saúde urbana e poluição sonora
http://www.euro.who.int/en/health-topics/environment-and-health/noise
3 Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, Instituto Nacional de Saúde – Saúde urbana e poluição sonora
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4873188/
4 Ondas de calor e mortalidade em centros urbanos
GUO, Y. et al. Heat wave and mortality: A multicountry, multicommunity study. Environmental Health Perspectives. v. 125 (8), p. 1-11. 2017.
5 Árvores e qualidade do ar
https://periodicos.ufsm.br/cienciaflorestal/article/view/27734/pdf
6 Árvores e poluição sonora
https://revistas.ufpr.br/revsbau/article/view/63655/pdf
7 Arborização e impactos na promoção da saúde
https://www.scielosp.org/article/csp/2018.v34n7/e00003618/
8 Arborização e diminuição do escoamento pluvial
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1980-50982019000100193
9 Áreas verdes e saúde nos centros urbanos
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142016000100113