Em meio a colapso, Bolsonaro questiona motivo de lotação de UTIs: ‘Parece que só morre de Covid’

Presidente também afirmou que nenhum país está lidando bem com a doença

Em meio a recordes seguidos do número de mortes pela Covid-19 no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira que “parece que só morre de Covid” no Brasil e questionou se a lotação nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) é causada somente pelo novo coronavírus.

Os comentários foram feitos durante conversa com apoiadores no Palácio da Alvorada. Bolsonaro disse a um apoiador que “um tio” seu morreu no mês passado. O homem perguntou se a causa foi Covid, e o presidente respondeu que fez o comentário de propósito para motivar a pergunta. Em seguida, comentou a situação das UTIs.

— Eu fiz aqui (um comentário) hipotético, qual a pergunta dele? Eu sabia que ia cair. “Morreu de Covid?” Parece que só morre de Covid. Os hospitais estão com 90% da UTI ocupada. O que a gente precisa fazer? (Saber) Quantos são de Covid e quantos são de outra enfermidade.  

Na quarta-feira, o Brasil ultrapassou pela primeira vez a marca de 2 mil mortos por Covid-19 na médida móvel dos últimos sete dias. Ao todo, são 285.136 vidas perdidas para o novo coronavírus desde o começo da pandemia.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou um boletim na última terça-feira alertando que a atual situação da pandemia corresponde ao “maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil“.

O boletim mostra que, no momento, das 27 unidades federativas, 24 estados e o Distrito Federal estão com taxas de ocupação de leitos de UTI Covid-19 iguais ou superiores a 80%, sendo 15 com taxas iguais ou superiores a 90%. Em relação às capitais, 25 das 27 estão com essas taxas iguais ou superiores a 80%, sendo 19 delas superiores a 90%.

Nesta quinta-feira, Bolsonaro também afirmou que nenhum país do mundo está lidando bem com a Covid-19 e disse que as críticas que ele recebe são de pessoas que querem “derrubar o presidente”. Disse, ainda, que esses críticos não apresentam soluções. Especialistas, no entanto, recomendam medidas de distanciamento social, que o presidente rejeita.

— Acho que um dos raros países do mundo onde querem derrubar o presidente é aqui. Eles não apresentam soluções. Quando eu digo “me apresente um país onde está dando certo o combate à Covid”, não tem. Esses caras que querem me derrubar, o que fariam no meu lugar? “Comprar vacina”. Onde é que tem vacina para vender?

Bolsonaro comentou a suspensão preventiva, por parte de alguns países da Europa, do uso da vacina da AstraZeneca, feita em parceria com a Universidade de Oxford, que está sendo aplicada no Brasil. O presidente disse que recomendaram a ele compras os imunizantes que não estão sendo utilizados, mas disse que não poderia fazer isso porque trata-se de um “lote suspeito”.

— Olha o que aconteceu agora. Não quero falar marca. Tem uma vacina que tem uns 10 países que não vão aplicar mais. Estão sabendo, né? Aí tem um cara, um cara inteligente, ligou para mim (e perguntou) “por que você não compra essa vacina”. Cara, se os países não estão aplicando no mínimo é um lote suspeito. “Ah, mas não tem problema”. A que ponto chegou a cabeça de algumas pessoas. Os caras não estão aplicando, então vai lá e compra, um lote que tem problema.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou a continuidade do uso da vacina  na população brasileira. O órgão afirma que “até o momento o uso das vacinas aplicadas no Brasil é seguro e não há motivo para a adoção de qualquer medida sanitária”.

Além disso, a presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade, disse que não há evidências de que a vacina tenha elevado o risco de efeitos colaterais, como trombose venosa e embolia pulmonar. A Fiocruz produz o imunizante no Brasil.

Críticas a Lula

Na conversa com apoiadores, Bolsonaro criticou a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que anulou duas condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Bolsonaro chamou Lula, que pode ser seu adversário nas eleições de 2022, de “um dos maiores bandidos” do Brasil.

— O país está dividido. É uma luta política ferrenha para 22, ferrenha. Em ministro do Supremo deu elegibilidade para um dos maiores bandidos que passou pelo Brasil. Alguns falam: “O Supremo…”. Foi um ministro, não foi o Supremo. Absolvendo o Lula.

O presidente fez referência ao dinheiro recuperado pela Operação Lava-Jato e disse que isso comprova que houve corrupção nos governos do PT.

— Pessoal, uma coisa apenas, se o delatores entregaram mais de R$ 2 bilhões, é porque eles roubaram. Roubaram de quem? Não foi de uma empresa privada de ninguém, foi de uma empresa pública.